terça-feira, 15 de março de 2016

Se eu partir

 

Se eu partir agora, nada levarei comigo. Nem meus livros, nem meus discos, minhas flores de cabelo... Nada! Tudo ficará jogados pela casa como retrato de um passado sem valor,já que parti.

 
Se eu partir, nada direi. Deduzirão depois que eu for,que eu era alegre,risonha,feliz...

 
Deduzirão, mas não saberão: Afinal, de cada um, somente ele próprio sabe.
Se eu partir lembrarão de mim pouco tempo, porque a vida passa sorrateira. Tão corrida que em poucos dias nada do que fui existirá. A vida corre rápido e só o que fui levarei comigo.


Se eu partir, e eu partirei, como partiremos todos um dia, rumo a algum lugar, ficará em minha casa só a poeira no espelho do quarto que um dia serviu de alento ao meu corpo depois dos dias de trabalho ou do descanso feliz dos dias que dividi risos com os meus.


As lágrimas serão esquecidas quando eu partir. Nem mesmo o lençol molhado das lágrimas de saudade permanecerá. Este secará, como secarão também as flores na garrafa de água mineral que foi bebida em noite de ressaca.


Os meus retratos, todos eles! Ficarão amarelados dentro de livros com folhas amassadas quando eu partir...


Nada permanecerá quando eu partir. Tudo seguirá o curso livre sem mudanças visíveis. As flores continuarão colorindo as primaveras e o inverno permanecerá cheio de saudade. O outono permanecerá com suas folhas na calçada e o verão trará o sol e seu colorido.


As estrelas rasgarão o céu e se jogarão no mar quando eu partir, mas essa já é a rotina corriqueira e banal da festa de encontros entre céu e mar.


Quando eu partir tudo caminhará como sempre. Só que, sem mim, porque eu já estarei caminhando em outro lugar, com outras pessoas e outros planos. Talvez em outro plano.


Tudo mudará, somente o meu amor permanecerá intacto quando eu partir.
Somente a saudade de ti continuará grudada em cada lugar por onde passei rasgando meu peito de vontade de encontros. Vontade de nossas vidas juntas, outra vez, só por um minuto. Um minuto apenas! E o que é um minuto? Que movimento vital eu poderia viver em um minuto? Dizer que te amo? Não! Isso tu já sabes como sabes tudo em mim que sou tu mais que eu mesma...


Quando eu partir somente o nosso amor continuará vivo, porque em qualquer lugar eu irei te amar. Mas as outras coisas e pessoas, estas continuarão, sem ti e sem mim, porque quando eu partir é porque fui ao teu encontro.

Lu Mota

Birigui 15 de Março de 2016

terça-feira, 8 de março de 2016

Dia Internacional das Mulheres.

Hoje acordei com cheirinho de bolo frito. Bolinho feito de tapioca fritinho, e que minha vó me deixava modelar a meu gosto. Sinto o cheiro e minha boca saliva. Vejo as paredes da casa, tudo marrom. Barro! Madeirinhas e cipó a vista nas amarrações. 
 
Meu avô na espera do café com bolo frito, alegre porém contido. Eu indo da cozinha ao colo do vô, ou ajudando a empurrar as lascas de lenha embaixo da trempe para o fogo não apagar... Era quase uma festa. A minha festa.Lembro da sala de visita sem nenhum móvel, e depois a cozinha com um fogão feito no chão com três bocas onde se coloca as penelas. 
 
Minha vó pequeninha, cabelão sempre feito um coque entre o alto da cabeça e a nuca, com um pente segurando para não desmanchar. Todos os pentes de minha vó eram marrons ou pretos. Acho que só existia nessas duas cores.Do lado direito a porta do quarto onde tinha uma janela que dava para a rua. No canto, a maquina de fiar e perto dela um cesto com algodão, um descaroçador e vários fusos e uma almofada com bilros.Minha paixão...
- toc, toc, toc
- Fia, você fez um errado. são quatro pontos... (como ela sabia quantos pontos eu tinha dado??? Pela conta do barulho dos bilros)
- Ta bom vó, vou arrumar. toc toc toc
Ressoava o som dos bilros pela casa toda e assim eu ia aprendendo... Casa de vó nunca devia ter fim, deveria ser eterna. Deveria acompanhar esse cheiro que nunca sai de minha memória... esse cheirinho bom que inundou minha cozinha quando o dia amanheceu e me banhou de saudades. 
 
Avós são seres alados, divindades com quem dividimos nossa infância e com quem dividimos nossas memorias eternamente. Hoje vi o vestido de chita de minha vó passeando pela cozinha com um kibane na mão fazendo bolinho para o café entre tantos netos. 
 
A lembrança foi tão forte que o cheirinho do óleo na panela ainda dança pela minha casa e minha memória olfativa se espalha em todos os meus poros. Minha vó é um espirito sábio que benze, reza, ora, faz chá curativo etc. Certamente esta por aqui.Sinto essa eternidade latente e quase palpável.
- A sua benção vó Lourdes.
- Deus te abençoe minha filha.
- Dorme com Deus vó.
- Já estou com Ele mia fia, fique com Ele também.
(Minha Vó Maria de Lourdes Mota Santana, a mulher mais linda que eu conheci... Deve estar nos braços dos filhos e netos lá pela eternidade. Cuide de mim no nosso dia e sempre...)
- Te amo vó!
 
 
 
Lu Mota
Birigui, 08 de Março de 2016

domingo, 6 de março de 2016

Mar sem fim

Longe de ti sou deserto.
Mar sem fim.
Ribanceira de rio seco.
Chuva de lágrimas
que escorrem em meus olhos
como vinho derramado
na toalha branca
bordada de soluços.
Meu silencio grita de remorso
pelas palavra que não digo.
Não me escondo no escuro,
nem no vento;
e nem na tempestade.
Quero roubar tua saudade
e preencher o deserto
de minha alma,
mas não consigo.
Meu amor é armadilha.
e teus olhos são a liberdade .

Lu Mota

Birigui 06 de Março de 2016