A multidão caminhava
enlouquecida uns chamando os outros como se estivessem sempre atrasados. Mães
carregavam crianças de colo. Como eu.
No meu colo minha filha assustada, como eu. Devia pressentir que estávamos sós
em um mundo que não era o nosso. Em uma Cidade que nunca tínhamos visto a não
ser na Tv que um dia vimos na janela da casa e uma família que morava do lado
da Praça da Matriz. Janela grande, aberta. Por ela eu vi uma Tv enorme, de
madeira marrom, cantos arredondados. Imagem preta e branca. Atores que eu já tinha visto nas revistas que
minha tia escondia de mim e eu lia escondido no quarto de guardar farinha, da
casa do meu avô. A Imagem era chuviscada mas
eu achava que era normal, afinal eu nem sabia mesmo o que era aquilo. Só
sei que me deixou encantada. Era como se o mundo estivesse ali, naquela TV.
Dentro de mim eu falei: Um dia vou morar nessa Cidade. Era Sampa! Os transeuntes continuavam o
vai e vem descontrolado. Todos tinham pressa. Todos buscavam por amigos,
parentes ou algum rosto conhecido. Uns chegavam assustados como eu. Outros
buscavam assustados os seus que ainda não haviam chegado. Olhava aquelas
pessoas e meu pensamento me levava em flashes contínuos para as coisas que eu
deixei. No meu colo minha filha dormia indiferente ao caos e ao frio. Coberta
com um lençolzinho branco que lhe aquecia o corpo.
Lembrei do meu irmão chorando
copiosamente na minha despedida da Cidade. O ônibus corria e em cada curva de
rua estreita, estava meu irmão me dando tchau e chorando. Como doía o choro do
meu irmão ao despedir se de mim. Aquele choro ainda ecoava em meus ouvidos. Um
abraço apertado entre soluços entrecortados por palavras de carinho. Meu
irmão... Meu irmão... Meu irmão... Comecei a ficar ansiosa e o nervosismo
já estava aparente. Era muita informação para um olhar acostumado a calma.
Abraçada a minha filha era difícil cuidar de malas, sacolas e bolsas. Sentei-me
em um canto e lá fiquei por eternidades contadas em exatos noventa minutos...
Nessa hora e meia veio toda minha existência em minha memória. - Uma casa perto do rio,
ladeada por árvores grandes. Quintal sempre varrido, um caminho que termina no
rio... Crianças desciam correndo e se jogavam no rio de águas limpas e claras
de correnteza. Crianças, Curumins...
Misturavam se na dança que a
correnteza impõe a quem quer equilibrar se em um único lugar na água...As crianças subiam no enorme pé
de Ingá e pulavam virando pirueta até cair na água e ver a cascata de pingos
que saiam da correnteza. Era um espetáculo. Na rodoviária as pessoas
continuavam a busca que mais parecia uma dança, um ballet em um teatro mágico
onde a modernidade dos passos quase se
chocam, mas sabem desviar se de todos que se trombam no palco da procura pelo
outro....Via aquelas pessoas e não conseguia parar de pensar; porque correm
tanto? Porque não andam devagar? Demorei muito a entender que em Sampa tudo tem
pressa, tudo tem que ser rápido, tudo precisa ser pra ontem.Minha filha abriu seus grandes
olhos pós sono, parecia que me indagava
onde estávamos. Eu sentia que ela me perguntava do pé de manga onde ela dormia
em sua redinha nas manhãs após o banho na grande bacia de alumínio. Parecia que
me perguntava sobre os tios que não á deixavam um minuto e alegravam se com
suas risadinhas de bebe. Cabelinho ralo, típico dos bebes. Dei lhe o
brinquedinho que trouxemos durante os três dias de viagem para que se
entretece. Ela pegou, esboçou um sorrisinho pálido e continuou seu sono
inocente.Já fazia uma hora que eu estava
ali, sentada no mesmo cantinho, imobilizada pela falta de alguém para cuidar do
meu bebe enquanto eu fizesse algo. Não podia soltar o meu bebe. Lembro de minha
mãe sempre dizendo; Não saia nunca de perto da sua filha, não deixe com
estranho, se alguém vier falar com vocês não converse muito. Olhe que estão
roubando crianças...
Essas lembranças confrontada com a realidade dos transeuntes
que disputavam palmo a palmo aquele espaço iam me tirando o fôlego. E se
ninguém fosse me buscar? Se eu ficasse
ali esperando e nunca fosse encontrada? Levantei-me na intenção de ser vista,
de ser enxergada por quem me procurasse. Deixei minha filha deitadinha em cima
da mala, indiferente ao caos. Abri a bolsa verde, peguei um
papel, li o endereço ali escrito. Fiz sinal para um taxista que passava com uma
sacola grande na mão. Ele parou e eu lhe perguntei sobre o endereço. Disse que
conhecia, que nem era longe.
Esqueci dos conselhos de nunca
falar nada para ninguém e disse lhe que estava com medo porque ainda não tinha
encontrado a pessoa que ia me buscar. Ele respondeu indicando um lugar e
disse-me que se a pessoa não chegasse, ele estava ali, do outro lado da rua e
que era só fazer um sinal que ele viria buscar minhas coisas e me ajudar, e que
o endereço era fácil.Fiquei mais tranquila, mas
ainda apreensiva. Ao guardar o papel com o endereço encontrei um envelope. Nele
uma carta escrita com uma letra bonita.
Passei os olhos nelas e li
algumas frases meio soltas.
- Quando chegar me espere e não tenha medo. Eu estarei te procurando. Não saia
do lugar do desembarque. Estou ansioso para conhecer nossa filha que eu já amo
mais que a minha vida. Assim como amo você.
Até daqui uns dias. Boa viagem e venham com Deus!!!Respirei e uma alegria gostosa
esquentou minha manhã fria. Senti uma leveza que me resgatava do peso do medo
de estar só.
Olhei longe e vi um rosto conhecido, querido.
Um rosto amado! Não dava para
precisar quanto tempo ficamos separados. Só sabia que agora estava ali na minha
frente e eu já não era uma menina. Era uma mulher, uma menina mãe de outra
menina. Perdemos a voz porque não tinha o que dizer, não podia falar. Tínhamos
tantas palavras para serem ditas! Tanta
historia para contar... Viagem, gravidez, parto, trabalho, caminhos,
vidas, choro de criança, caos, medo, solidão, angustia, fé, procura, família,
abandono...
Ele se abaixou, chamou nossa filha pelo nome e disse; Filha, é o papai. Ela riu
um risinho tímido. Ele a pegou no colo e ficaram abraçados por eternidades.
Sentindo a emoção do momento abracei os também. Não sei quanto tempo durou
aquele abraço. Mas a partir dali eu sabia que não estaria mais sozinha.
Multidão, malas, sacolas,
taxistas, carros, barulho, vai e vem de pessoas, café amargo, crianças,
lembranças, medo, solidão.
Rodoviária do Glicério. São Paulo.
25 de Dezembro de 1979.
Lu Mota