quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Promessa- (Poema para Zei)

Nada prometo.
nem um poema
nem um soneto.
Nem noite estrelada,
madrugada enluarada.
nem partida no trem,
ou chegada na estação.
Nem retrato juntinho,
pendurado na parede...
nada prometo.
Não te prometo nosso nome
dentro de um coração
e nem uma tatuagem dizendo que te amo.
Te prometo apenas um pedacinho do meu mundo
que junto com um pedacinho do teu mundo
formará um pedacinho maior.
e juntos, formaremos
nosso universo particular.
...Te prometo apenas a primavera...
Lu Mota

Birigui 23 de Setembro de 2015


...hoje chegou a primavera

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Caos na Rodoviária

Desembarquei e o burburinho me ensurdecia. Era tanta gente indo e vindo. Andado de um lado para outro como se a busca incessante estivesse sempre do lado contrário as outras pessoas.  Gente carregando malas enormes, sacos cheios de todo tipo de bagagem. Um caos enlouquecido.  Informação demais para quem nunca tinha saído de uma pequena Cidade do interior.

São Paulo. 1979. Frio. Medo. Uma menina com outra menina, No colo! Mãe e filha perdidas na multidão de uma rodoviária lotada de pessoas que se aglomeravam no dia de Natal. 25 de Dezembro...O medo de não ser encontrada naquela multidão me trazia arrepios que dificilmente eu saberia se era do frio ou de ansiedade. Afinal era dezembro e nessa época do ano o clima é mais quente. Eu ainda não sabia que o clima em São Paulo é variável e pode fazer frio, calor e ate gear em um único dia. Mesmo em Dezembro. Mesmo no dia 25 de Dezembro.Era Natal, mas eu nem entendia que era a maior festa do ano. Não sabia que essa data era tão significativa. Lá na minha pequena cidade eu apenas conhecia esse dia como o dia que tinha A Missa da Meia Noite. E que nesse dia os jovens usavam roupas e sapatos bonitos para passear na Praça da Matriz. Mas eu não pertencia a esse mundo. Não tinha a roupa e nem os sapatos, nem novos e nem velhos .. Eu não tinha sapatos!!
A multidão caminhava enlouquecida uns chamando os outros como se estivessem sempre atrasados. Mães carregavam crianças de colo. Como eu. No meu colo minha filha assustada, como eu. Devia pressentir que estávamos sós em um mundo que não era o nosso. Em uma Cidade que nunca tínhamos visto a não ser na Tv que um dia vimos na janela da casa e uma família que morava do lado da Praça da Matriz. Janela grande, aberta. Por ela eu vi uma Tv enorme, de madeira marrom, cantos arredondados. Imagem preta e branca.  Atores que eu já tinha visto nas revistas que minha tia escondia de mim e eu lia escondido no quarto de guardar farinha, da casa do meu avô. A Imagem era chuviscada mas  eu achava que era normal, afinal eu nem sabia mesmo o que era aquilo. Só sei que me deixou encantada. Era como se o mundo estivesse ali, naquela TV. Dentro de mim eu falei: Um dia vou morar nessa Cidade. Era Sampa! Os transeuntes continuavam o vai e vem descontrolado. Todos tinham pressa. Todos buscavam por amigos, parentes ou algum rosto conhecido. Uns chegavam assustados como eu. Outros buscavam assustados os seus que ainda não haviam chegado. Olhava aquelas pessoas e meu pensamento me levava em flashes contínuos para as coisas que eu deixei. No meu colo minha filha dormia indiferente ao caos e ao frio. Coberta com um lençolzinho branco que lhe aquecia o corpo.
Lembrei do meu irmão chorando copiosamente na minha despedida da Cidade. O ônibus corria e em cada curva de rua estreita, estava meu irmão me dando tchau e chorando. Como doía o choro do meu irmão ao despedir se de mim. Aquele choro ainda ecoava em meus ouvidos. Um abraço apertado entre soluços entrecortados por palavras de carinho. Meu irmão... Meu irmão... Meu irmão... Comecei a ficar ansiosa e o nervosismo já estava aparente. Era muita informação para um olhar acostumado a calma. Abraçada a minha filha era difícil cuidar de malas, sacolas e bolsas. Sentei-me em um canto e lá fiquei por eternidades contadas em exatos noventa minutos... Nessa hora e meia veio toda minha existência em minha memória. - Uma casa perto do rio, ladeada por árvores grandes. Quintal sempre varrido, um caminho que termina no rio... Crianças desciam correndo e se jogavam no rio de águas limpas e claras de correnteza. Crianças, Curumins...
Misturavam se na dança que a correnteza impõe a quem quer equilibrar se em um único lugar na água...As crianças subiam no enorme pé de Ingá e pulavam virando pirueta até cair na água e ver a cascata de pingos que saiam da correnteza. Era um espetáculo. Na rodoviária as pessoas continuavam a busca que mais parecia uma dança, um ballet em um teatro mágico onde a  modernidade dos passos quase se chocam, mas sabem desviar se de todos que se trombam no palco da procura pelo outro....Via aquelas pessoas e não conseguia parar de pensar; porque correm tanto? Porque não andam devagar? Demorei muito a entender que em Sampa tudo tem pressa, tudo tem que ser rápido, tudo precisa ser pra ontem.Minha filha abriu seus grandes olhos pós  sono, parecia que me indagava onde estávamos. Eu sentia que ela me perguntava do pé de manga onde ela dormia em sua redinha nas manhãs após o banho na grande bacia de alumínio. Parecia que me perguntava sobre os tios que não á deixavam um minuto e alegravam se com suas risadinhas de bebe. Cabelinho ralo, típico dos bebes. Dei lhe o brinquedinho que trouxemos durante os três dias de viagem para que se entretece. Ela pegou, esboçou um sorrisinho pálido e continuou seu sono inocente.Já fazia uma hora que eu estava ali, sentada no mesmo cantinho, imobilizada pela falta de alguém para cuidar do meu bebe enquanto eu fizesse algo. Não podia soltar o meu bebe. Lembro de minha mãe sempre dizendo; Não saia nunca de perto da sua filha, não deixe com estranho, se alguém vier falar com vocês não converse muito. Olhe que estão roubando crianças...
Essas lembranças  confrontada com a realidade dos transeuntes que disputavam palmo a palmo aquele espaço iam me tirando o fôlego. E se ninguém fosse me buscar?   Se eu ficasse ali esperando e nunca fosse encontrada? Levantei-me na intenção de ser vista, de ser enxergada por quem me procurasse. Deixei minha filha deitadinha em cima da mala, indiferente ao caos. Abri a bolsa verde, peguei um papel, li o endereço ali escrito. Fiz sinal para um taxista que passava com uma sacola grande na mão. Ele parou e eu lhe perguntei sobre o endereço. Disse que conhecia, que nem era longe.
Esqueci dos conselhos de nunca falar nada para ninguém e disse lhe que estava com medo porque ainda não tinha encontrado a pessoa que ia me buscar. Ele respondeu indicando um lugar e disse-me que se a pessoa não chegasse, ele estava ali, do outro lado da rua e que era só fazer um sinal que ele viria buscar minhas coisas e me ajudar, e que o endereço era fácil.Fiquei mais tranquila, mas ainda apreensiva. Ao guardar o papel com o endereço encontrei um envelope. Nele uma carta escrita com uma letra bonita.
Passei os olhos nelas e li algumas frases meio soltas.  - Quando chegar me espere e não tenha medo. Eu estarei te procurando. Não saia do lugar do desembarque. Estou ansioso para conhecer nossa filha que eu já amo mais que a minha vida. Assim como amo você.  Até daqui uns dias. Boa viagem e venham com Deus!!!Respirei e uma alegria gostosa esquentou minha manhã fria. Senti uma leveza que me resgatava do peso do medo de estar só.  Olhei longe e vi um rosto conhecido, querido.  Um rosto amado!  Não dava para precisar quanto tempo ficamos separados. Só sabia que agora estava ali na minha frente e eu já não era uma menina. Era uma mulher, uma menina mãe de outra menina. Perdemos a voz porque não tinha o que dizer, não podia falar. Tínhamos tantas palavras para serem ditas!  Tanta historia para contar... Viagem, gravidez, parto, trabalho, caminhos, vidas, choro de criança, caos, medo, solidão, angustia, fé, procura, família, abandono... Ele se abaixou, chamou nossa filha pelo nome e disse; Filha, é o papai. Ela riu um risinho tímido. Ele a pegou no colo e ficaram abraçados por eternidades. Sentindo a emoção do momento abracei os também. Não sei quanto tempo durou aquele abraço. Mas a partir dali eu sabia que não estaria mais sozinha. 
Multidão, malas, sacolas, taxistas, carros, barulho, vai e vem de pessoas, café amargo, crianças, lembranças, medo, solidão. Rodoviária do Glicério. São Paulo. 25 de Dezembro de 1979.
Lu Mota